I Seminário do Carnaval de Brasília - Secult
- 11 de set. de 2017
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Nos dias 24 e 25 de agosto, a Secretaria de Estado de Cultura do DF realizou o I Seminário do Carnaval de Brasília que, além da presença de nossos blocos e escolas de samba, também contou com representações dos carnavais do Rio de Janeiro, São Paulo, Recife/Olinda e Belo Horizonte. Um intercâmbio riquíssimo para a cidade.
Muitos dos representantes do carnaval de Brasília expressaram a falha da Secult em não tê-los solicitado e/ou consultado para a montagem deste seminário, contudo, os temas e os convidados não deixaram a desejar. Nas mesas foram abordadas as questões do direito à cidade, territorialidade, o carnaval como manifestação cultural e como gerir a economia do carnaval concebendo-o como manifestação e não produto. As mesas foram seguidas de debates sobre avaliação do carnaval de Brasília 2017 e as diretrizes para 2018.
Os convidados das outras cidades apresentaram a realidade de seus carnavais. Pudemos conhecer desde a grande organização dos carnavais de Salvador e Olinda como também saber como estão sendo estruturados carnavais mais próximos à nossa realidade, como os de Belo Horizonte e São Paulo. Um ponto interessante e comum a todos os carnavais é a questão dos moradores insatisfeitos com a realização dos eventos. Ainda que a famigerada Lei do Silêncio só seja aplicada no carnaval do DF, é comum a incompreensão dos poderes públicos sobre os eventos que são, em verdade, manifestações culturais.

Nas falas de todos os convidados podia-se sentir o amor ao carnaval, essa festa democrática, de chão, liberta, que é 'magia' e tem até de conotação religiosa, como nos lembrou Pepe Jordão, assessor da presidência da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco, FUNDARPE, para carnaval e projetos culturais. Segundo Pepe, no Recife celebram-se as Águas de Oxalá no segundo domingo de janeiro, que abrem os caminhos para os festejos de carnaval - que abençoado seja. Mesmo sendo carnavais de grande proporções, é muito gostoso ver a naturalização do carnaval como parte da cidade, ou da cidade como parte do carnaval que é, como acontece em Salvador e Pernambuco.

Os representantes de Belo Horizonte apontaram que celebrar o carnaval também faz parte de uma concepção politica de cidade, pois o carnaval nos possibilita outras maneiras de viver a experiência urbana. E, dentre as experiências mineiras, a que nos brilhou os olhos foi a conquista de transporte público gratuito durante o carnaval! A experiência que nos acalentou o coração foi a de levar a folia para ocupações e periferia da cidade, uma iniciativa dos blocos. O diálogo entre Brasília e BH tem muito a agregar, são carnavais de luta e história, ainda que a do quadradinho muito mais nova, mas muito parecidas sobre tudo no que tange a comunicação com o poder publico e o desejo anárquico de se brincar carnaval.
Os casos de assédio e violência LGBT ocorridos no carnaval de Brasília neste ano foram muito citados. O bloco Aparelhinho sinalizou que mudará seu horário para encerrar suas atividades ainda de dia, com a proposta de ser um bloco mais diurno e atrair mais famílias para brincar, como medida de minimizar ocorrências de assédio que aumentaram no último desfile. Merina Aragão, gerente de Carnaval de Salvador, nos trouxe que durante o carnaval soteropolitano há postos de atendimento para a comunidade LGBT, algo a ser melhor estudado por nós.
Uma proposta lançada pelo representante do bloco Suvaco da Asa, Pablo Feitosa, que também falava em nome do coletivo dos Blocos Alternativos, foi de ter um edital do FAC somente para o carnaval, assim como existe para o setor do audiovisual. Dessa maneira, blocos e escolas de samba poderiam concorrer ao edital para confecção de fantasias e cachês de artistas, por exemplo, itens que são específicos para a realização do bloco ou escola. A proposta se justifica pela importância e magnitude que o carnaval tem hoje para a cidade. Nessa linha, Karen Cunha, gestora e produtora cultural de São Paulo, nos apresentou exemplos de captação de recursos que alguns blocos paulistas utilizam para sair às ruas, como comercialização de alimentos e bebidas nos ensaios, venda de camisetas e produtos, almoços e jantares, festas e ensaios abertos, financiamento coletivo e marketing do bloco aliado à publicidade de patrocinadores.
Uma observação levantada por Juca Ferreira, ex-ministro de Cultura, sobre Brasília permeou todo o seminário: o clima festivo. Como saber se já está em tempo de carnaval ou festas juninas, por exemplo, se não vemos a cidade se preparando com decorações e aquele clima de expectativa e alegria que nos enche os corações? Esta é uma questão cultural, de uma cidade nova que ainda se transforma e sofre com uma parcela conservadora da população. No entanto, o Estado pode promover campanhas para ajudar a consolidação da naturalização das festividades na cidade, o que minimizaria em muito os conflitos com moradores. Nessa política também deve entrar a discussão sobre os horários de término dos blocos. É de consenso que os blocos têm duração máxima de 6h à 8h, porém a obrigatoriedade de não ultrapassar as 22h cerceia a autonomia e autenticidade dos blocos, impedindo a criação de novas tradições culturais para a cidade - o que seria do bloco O Homem da Meia Noite, de Olinda, se lá também houvesse a Lei do Silêncio do DF?
Além de apresentar o lindo projeto desenvolvido com a comunidade ao longo do ano, o bloco Menino de Ceilândia pontuou em todas as oportunidades a importância da descentralização do carnaval do DF,que não ocorre somente no Plano Piloto. Em diversas Cidades Satélites acontecem maravilhosos blocos e escolas de samba, como a Lordes do Areal de Águas Claras, também presente no Seminário com belas falas. O principal intercâmbio de carnavais que deve ser feito é esse: entre os quatro cantos do quadradinho. Todos os envolvidos no carnaval têm muito a ganhar com essa troca de saberes e o carnaval só se fortalecerá.
Devido ao crescente número de blocos de rua e a retomada da folia de rua em muitas cidades do Brasil, o Seminário esteve voltado mais a essa pauta. Mas as escolas de samba de Brasília se fizeram presentes nos dois dias, com falas, perguntas e cobranças. São dois anos sem desfiles na capital. O Secratário de Cultura do DF, Guilherme Reis, é enfático em dizer que não liberará verba pública. Durante muitos anos, escolas de samba e os blocos da Liga dos Blocos Tradicionais recebiam do governo para desfilarem. Hoje, alguns blocos estão endividados e as escolas não conseguem desfilar. São novos tempos e temos que nos juntar para aprender uma nova maneira de autossustentar os blocos. E, no caso das escolas de samba em especial, a secretaria poderia implementar campanhas de incentivo às empresas para patrocinarem as escolas que são uma tradição antiga da cidade.
Ano que vem o carnaval cai no início de fevereiro, então no meio de janeiro começa o pré-carnaval - ou seja, já já começarão as festas de prévias dos blocos. Isso significa que o planejamento precisa estar na ponta do lápis e muitas reuniões com a Secult precisarão acontecer até lá. O Seminário foi excelente e que as observações de nossos representantes tenham sido absorvidas e que as comunicações continuem.
Finalizando, a força das escolas de samba de Brasília pelo presente do Acadêmicos da Asa Norte no encerramento do Seminário:
Viva o carnaval!






































































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